Pouco depois da saída de Vairão, para início da 2º etapa, um episódio curioso para os estreantes caminhantes mas revelador do espírito do Caminho: a ajuda dos locais aos anónimos passantes a caminho de Compostela.
Garrafas de água e sacos com fruta são deixados na soleira das portas para apoio a quem passa e queira levar; sem perguntar, sem questionar, faz-se uso, quase a medo, da bondade alheia.
Abrutalhados pela desumanização que nos vai caracterizando, estranha-se tamanho acto como dádiva eivada de disfarçadas intenções. O gesto de oferta desinteressada com que o Outro nos contempla é recebido a modos hesitantes e desconfiados, incapazes que nos vamos construindo nesse distanciamento.
No jardim desta moradia uma senhora de meia-idade, de robe vestido, ia dando uma vista de olho pelas flores. Junto ao muro, ao dispor de quem passava, um dispensador de água, copos limpos, limões cortados em fatias, pacotes de açúcar e um boião com rebuçados, tudo assente numa mesa protegida por um guarda-sol. Numa manhã de Domingo, cedo, alguém se disponibilizou para oferecer em dádiva um pouco do seu tempo apenas por isso: dar.
Ponte. D. Zameiro, séc. XII / XIII, românica. Sobre o Rio Ave, une as margens Macieira da Maia (a sul) e Bagunte (a norte).
A História sempre me interessou e fico fascinado com os arcos temporais possíveis de estabelecer quando mergulhámos, mesmo que superficialmente, no seu estudo.
A ponte D. Zameiro fez parte da estrada romana/medieval que, saída do Porto, passava o mosteiro de Vairão, rumava ao Mosteiro de S. Simão da Junqueira, passava o rio Este através da Ponte dos Arcos, seguia no sentido do Mosteiro de S. Pedro de Rates e continuava a subir a caminho de Barcelos e Ponte de Lima. Já referida nas inquirições de D. Afonso III, de 1258, era conhecida como "Via Vetera". Como diria o mitra da minha rua: "Num brinques, mano!"
Capela do Senhor dos Dezamparados, em Arcos, Vila do Conde.
Uma constante no caminho foram as pausas para café. Não será de estranhar se disser que o nosso POPC (patrocinador oficial das paragens para café) foi o Sandro, autêntica bomba ambulante, a adrenalina de mochila às costas. Com o conta-rotações no vermelho à custa da privação de uso dessa loura doida, a Nico Tina, o avistamento da publicidade anunciadora de um snack-bar, ainda que ao longe, fazia disparar o ritmo de intensidade da passada transformando-o num atleta olímpico da Marcha em Estrada. A devoção era outra e como muitas vezes lembrou ao longo de toda a jornada: "o padre da minha freguesia diz ca'fé é que nos salva!".
Um, dos muitos cafés que prestigiamos com a nossa presença. Diz a lenda que, por isso, hoje é Snack-Bar 3 estrelas Michelin.
A qualquer lado que vá pela primeira vez gosto de me habilitar com conhecimento prévio. Seja terra, terrinha, capela ou capelinha, monte ou planície, procuro saber antecipadamente com o que posso contar; mais do que prevenção excessiva sobre qualquer receio que se afigure, é modo lesto de não perder nada: ou porque estando lá, não vi; ou porque desconhecendo, não procurei.
Assim, está bem de ver que tratei de elaborar um roteiro de 20 páginas das terras por onde iríamos passar e particularidades a que deveríamos dar atenção, distribuindo uma cópia a cada um dos participantes. Pela foto a seguir, dá para perceber o uso que fiz do meu: dobrado, rabiscado, num estado físico que o assemelha a um manuscrito do séc. XVI. Mantenho-o guardado junto da memorabilia do Caminho.
Estudos académicos de alto calibre afiançam ser o único exemplar disponível. De acordo com registos ainda não validados cientificamente, os restantes exemplares terão sido destroçados à medida dos inconvenientes gástricos dos seu possuidores.
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