Confessa o escrevinhador a andança arredia deste posto emissor; mais confessa a pouca monta do impedimento: preguiça! Fiapos dos dias cozinhados em evasão e languidez, como bandos de pardais à solta, apurados em lascívia e prostração na espuma dos dias.
Atiçada a galderice, alego em minha defesa que dos 7 pequei 1; quem de sete um tira, sobram seis - seis dos 7 que enxameiam a consciência de 5 quintos da humanidade: eis-me imolado, porquê? Antes burro que cordeiro!
Entrementes, vagueei serras e plainos, encostas e vertentes, riachos e penedos; caminhos de ausências e outras substâncias impeditivas de vivalma. Ganhei vida, perdi quilos.
E, mais uma vez, cheguei a Compostela.
É a partir desta semelhança que retomo a fraca narrativa dos fracos caminheiros em viagem inaugural da carreira.
Na saída de Padron, abençoada com o estralar da bomba e o foguete no ar, bandos de zés-pereiras encabeçando o desfile de despedida faziam troar e ecoar pelas longitudes da Galiza o vozeirão tonitruante arrancado às goelas dos bombos.
Colchas da mais fina renda e melhor tecido engalanavam as varandas de ferro, alindadas à laia de moda florida. À nossa passagem, das janelas esvoaçavam lenços brancos nas mãos de virginais donzelas, cujos dedos, desfalecendo, mal cuidavam segurar o rico pano em cuja bordadura se espraiava um acamado tapete de lágrimas amorosas, assim derramadas pelo coração de quem sofria apaixonada.
É, vistosamente notada, uma hipérbole: não existem mais virginais donzelas.
Exageros à parte, o que pretendi dizer sem escrever apela à imaginação do leitor, a esse espaço mental único e irrepetível caído em sorte a cada um de nós no lançamento dos dados da vida.
A aproximação a Compostela animava o dia e coloria as horas de intensidade heroica, como se credores de um prémio, um hurra!, uma medalha; regozijos pela obra feita, os maiores da nossa rua e travessas vizinhas.
Bolas!, como se pode ser tão previsível e enfadonho? É o caldo de cultura em que mergulhámos, nenhum homem é uma ilha e depende, mesmo no mais ínfimo detalhe, dos outros. É nascer, enterrado até aos ossos, na civilização europeia, ocidental, e comer das entranhas do racionalismo puro e duro.
Parece cinismo de pacotilha verberar inimizades a um sistema de pensamento enquanto se está alapado no conforto e segurança por ele proporcionados. Não se trata disso, mas sim de, corajosamente, experimentar, um dia, virar tudo do avesso e ver as costuras, as imperfeições e abrir os olhos para outras possibilidades de construção, de análise; saber que outras soluções são possíveis enquadradas em diferentes sistemas de pensamento tão válidos quanto o que me constrói e faz.
Aceitar a chegada a Compostela como "o fim" é trilhar, sem desvios, sem coragem, esse rumo que nos apontaram desde o início como o único, o palco das consequências finais de cada acto nosso; o culminar lógico das nossas acções. Presos e enredados nesta teia de racionalismo - dogmáticos, até! - descuramos o olhar descomprometido que deveríamos usar. Estamos treinados em aguardar a conclusão óbvia, pois nos ensinaram que A + B conduz a C e que, em não acontecendo, o erro se revela. Eis o que somos e revelamos.
O que é "chegar" a algum lugar? É um local seguro aonde aportámos com as nossas dúvidas e indecisões bem guardadinhas num cantinho da mala depositada no porão. Aprendemos a não desarrumar, importunar, tirar do sitio; transformámos a vida num partida de Tétris: se as peças não encaixarem correctamente, Game Over, sucker! Foi isto que fizemos das nossas vidas: um armazém aprumado de corredores plenos de prateleiras arrumadas. Toda e qualquer alteração é um crime de desadaptação e falta de integração; de descuido e desleixo. É um processo de desculpabilização e auto - punição, mesmo que lá no fundo, bem lá no fundo, uma centelha de coragem resista, quase afogada na frustração.
E por não saber o que fazer com isto, fingimos.
Chegar a Compostela não é a conclusão do caminho percorrido, a atribuição de uma comenda e o registo de um recorde, o objectivo para o qual tanto nos esforçamos. Chegar é um "não-chegar", é desprezar a meta se identificada na rígida quadrícula de intenções em que nos movemos; é um continuum, um campo aberto no plano das possibilidades. Então, aí, percebemos o quanto a mente, amordaçada, pode ser a nossa maior inimiga, o maior bloqueio ao entendimento que mais nos satisfaz apenas pela sua característica: o espanto com as coisas.
O complicado Fernando Pessoa, pela pena do Alberto Caeiro, o heterónimo boa-onda, escreveu um poema intitulado "A espantosa realidade das coisas", que começa assim:
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Eis o cais de chegada transformado em cais de partida, pois estamos sempre em movimento. Nunca chegámos: estamos logo em partida. Interromper este fluxo é como fazer uma viagem com a agência: vamos aos sítios a que eles nos levam ver as coisas pelo olhar dos outros.
O enorme Mílton do Nascimento traduz numa música - "Encontros e despedidas" - este sentimento de incompletude:
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida (...)
Contextualizando: chegar a Compostela é menos sobre religião e mais sobre nós próprios, seres humanos e sociais, imperfeitos e fracos; é sobre a capacidade de nos renovarmos a partir de dentro, das dores e mazelas cristalizadas que insistimos esconder; é sobre o permanente caminho que é a nossa condição.
Mas isto, aqueles quatro de 2017 ainda não o sabiam.
"Faz o que possas e o que não possas, esforça-te até ao extremo, luta, batalha, conquista. Morde os dentes à realidade dura e não a largues até a domares. Faz isso tudo como se a grande tarefa dependesse do teu ânimo e do investimento do teu suor. Não deixes, porém, de saber que nada te pertence. Tu não és dono: és o pastor.
Desconcerta-te com o esplendor inexplicável de cada amanhecer. Conserva-te sem palavras perante o mar, como aqueles que pela primeira vez o olharam; sente-te irresistivelmente atraído pela variação de cores, de volumes, e de odor da paisagem diurna e nocturna; estremece sempre ao primeiro contacto com a água; mantém intacta a capacidade de espanto perante o modo como o vento arrasta as nossas vozes felizes na distância; olha do mesmo modo desprevenido a chuva, os campos alagados em silêncio, as coisas mínimas e amplas, o tráfico das nuvens, a disseminação das papoilas que nos campos se parecem com palavras que sonham. Saboreia o embaraço por aquilo que permanece em aberto não por insuficiência, mas por excesso, e não te apresses a catalogar, a descrever ou a aprisionar.
Que a tua forma de compreensão seja um outro modo de ampliar o espanto. Seja esse o teu legado àqueles que amaste."*

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