Recordo um episódio ocorrido durante o Caminho Inglês e que ilustra na perfeição o tema do Encontro como resultado da confluência dos caminhos, que não necessariamente os físicos. Dada a vivência nos albergues, etapa após etapa, ao longo do Caminho, surge como natural uma aproximação entre os peregrinos que pode ser manifestada no convívio durante e/ou após a chegada, na partilha das refeições ou troca de alimentos, etc...Na chegada a Compostela é com alegria que nos saudámos quando, por acaso, possâmos cruzar uns com outros.
Em Pontedeume, no fim da 2ª etapa, apareceram no albergue uma polaca e um italiano, com idades próximas dos 30 e prosseguiam, tal como nós, com destino a Compostela. Simpáticos e afáveis, encontrávamo-nos ao fim do dia no albergue destino, conversando um pouco. No dia seguinte, cada qual com a sua rotina e o seu ritmo seguia o seu propósito, para novo encontro umas horas depois, no próximo albergue.

À esquerda, na foto, antigos armazéns dos pescadores convertidos em comodidades para a comunidade, entre elas, o albergue de peregrinos;
do outro lado, a singela vista...
Durante a tarde no dia da chegada a Compostela, a subir a rampa - bem inclinada, por sinal! - de acesso ao Seminário Menor, que funciona como albergue, demos de caras com uma mulher, jovem de 30, a empurrar um carrinho de bebé atafulhado de fardos, e de mochila às costas. Visivelmente cansada, toda a indumentária a indicava como peregrina. Como sou uma pessoa muito prestável (acham que em terra de Santo iria ser rezingão?), perguntei-lhe se ia para o Seminário e se queria ajuda. De pronto respondeu afirmativamente às 2 perguntas. E foi ali, na rampa de acesso ao seminário, que foi criada a lenda dos Santos que são Santos - no futuro, aquele local será conhecido como Rampa dos 2 Santos portugueses! Eu explico: eu, e o Jorge, temos comum apelido familiar: Santos. Está explicada a minha santidade.
Fachada principal do Seminário Menor. No dia seguinte partiria para Finisterra. Adivinhem quem está a curtir um sol sentado na primeira cadeira a contar da direita.
Delírios à parte, e continuando: o local de origem é, desde logo, das primeiras perguntas que mutuamente se fazem entre peregrinos. Ela era polaca e quando soube que havíamos conhecido uma polaca, tal como ela, euforicamente disse ser sua amiga após confirmarmos as descrições feitas da polaca e do italiano com que nos havíamos cruzado nos últimos dias.
À noite, após o jantar, passeando na praça do Obradoiro - defronte da Catedral -, absorvendo a calma que aos poucos vai surgindo após as coisas feitas, encontro o casal italo - polaco. Acima referi o estado de felicidade do encontro, a sensação de cumprimento do estabelecido, de mais uma etapa preenchida para, logo depois, dar-lhe a novidade de ter conhecido uma polaca.
O diálogo foi meio louco, na altura:
- "Sim eu sei!", respondeu. Primeiro nó no cérebro que me deixou a pensar: "Como podes saber se só agora estou a contar o sucedido? "E continuou: "Ela disse que 2 portugueses foram muito gentis a ajudarem-na a subir a rampa e eu lembrei-me logo de vós.".
Tal como disse anteriormente: não é 5G, mas funciona.
Retornando a narrativa da epopeia: saídos de Santa Ana aportámos a Mos, logo a seguir, para tomar o pequeno almoço na Taperia Flora, bem no centro da localidade. É muito interessante como os espanhóis conseguem manter vivos pequenos núcleos habitacionais, mantendo e aprimorando os locais de vivência. Muito ganharíamos se copiássemos esta prática.
Igreja de Santa Eulália de Mos, ou Santa Baia de Mos, pois Baia em galego é o diminutivo de ...Eulália.
Taperia Flora e nós na media de leche!!!!!!!!
A partir daqui, foi sempre a subir em plano ligeiro, por estrada asfaltada, estreita, ladeado por belas construções e, mais à frente, campos de cultivo. Ambiente completamente rural e tranquilo.
Parece uma fotografia de apoio a uma pergunta, num teste: "Um destes peregrinos vai a cometer um erro, qual deles? Justifique a resposta.".
Vista de postal.
Depois de passarmos à capela de Santiaguiño de Antas, o marco miliário de Vilar de Infesta testemunha a nossa presença. Elemento pertencente à já aludida Via XIX, marcava a distância percorrida na medida usada pelos romanos: Milia Passum. Terá sido erigido na época do imperador Trajano, séc. II.
O marco miliário numa pose mais elegante que a minha.

Por vezes torna-se difícil legendar algumas fotos; esta, é um exemplo: não sei o que nos passava pela cabeça, nem o que dela dizer!
Subindo, no mapa e no relevo, pousámos numa refrescante zona de lazer provida de sombra e água fresca: Parque de merendas Outeiro de Penas. Dado o carácter estético do local, decidimos uma foto para figurar como capa da cassete do nosso próximo projecto musical.
A capa da próxima cassete. Reminiscências d' Os Iniciadores que não desprezámos: ao mestre o que é do mestre!
Depois de ultrapassado o cume, iniciámos a descida para, pouco após, avistarmos por entre a folhagem a Ria de Vigo. Aproximámo-nos de Arcade, terra das melhores ostras da Galiza - dizem. Infelizmente, não pudemos comprovar - nem provar!
Curiosas manifestações relativas ao culto a Santiago e que, espontâneamente, vão surgindo no caminho.
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