É milenar a desconfiança feminina quanto à existência de uma secreta e maçónica Irmandade Masculina: em qualquer situação um homem encontra sempre apoio e resguardo junto dos do seu género, uma espécie de código secreto natural e plantado no mais recôndito lugar do cérebro macho. À mais ínfima névoa de ameaça, aí está a força invisível e atuante a agregar defesas junto do irmão em perigo, mesmo que desconhecido, de outra raça ou país, gordo ou magro - um irmão é um irmão. Ao contrário d'elas, argumentam, mais interessadas nas pequenas invejas e misérias com que povoam o universo feminino. E, se elas o dizem, quem serei eu para contradizer... 

Este inicial arrazoado de íntima filosofia de pacotilha serve para validar o argumento inicial: sim, existe uma ligação entre os gajos que vem do início dos tempos; isto, a fazer fé no modo como os quatro projectos de caminhantes iniciaram o desafio, logo à saída do Largo de S. Domingos, como se conhecidos há mais que muito tempo e outro tanto. 

Eu não sei como é: perguntem às gajas!

De regresso ao caminho: subida à Cordoaria rumo à Rua de Cedofeita, passagem para Oliveira Monteiro e subida até ao Carvalhido para continuação até Monte dos Burgos. Aqui, percorridos uns delirantes e extenuantes 4 km, dos 240 totais, contávamos com o inexcedível apoio da Maria José na distribuição de líquidos para hidratação; assim como nas imagens da televisão da Volta à França em bicicleta, o povo na lateral das ruas a distribuir boiões de água e os ciclistas manobrando gingadamente os braços a fim de os capturar.

Mas não aconteceu...nem nós íamos assim tão depressa!

Pode não parecer tão "cool" atravessar a cidade de mochila, no meio do trânsito, dos prédios e da confusão, contudo, é uma parte de um global e, como tal, integrante de todo o percurso, seja físico ou espiritual.

Atravessando a mítica Circumbalaçõm, seguimos via Custóias, Gondivai, Araújo e Custió, optando por atravessar a ponte romana sobre o rio Leça. Ponte do Ronfe, ou da Azenha, integrava uma via de circulação regional, referida como Karraria Antiqua na documentação medieval, provenienet de Cedofeita (uma das antigas vias de saída da cidade), atravessava todas as localidades por nós percorridas e cuja origem remontará a uma estrada secundária romana. Com os pés, a percorrer séculos de história.

É muito interessante este mergulho nas raízes, na base primordial ignorada na maioria do tempo; e tudo tão perto!  

Atravessada a EN13, subimos a encosta do lado contrário até à Igreja da Nossa Senhora do Bom Despacho, atravessando a Maia de caminho a Vila do Conde.

Se opto por uma descrição ligeiramente pormenorizada desta etapa, serve apenas para contextualizar o espaço: tão próximo,  tão acessível e, no entanto, tão desconhecido.

É frequente encontrar elementos de identificação com o Caminho, sejam azulejos com a Vieira, com a seta amarela ou a figura de Santiago. Aqui, na subida à Igreja da Nossa Senhora do Bom Despacho, pequena estatueta em nicho colocado num muro.

Aos poucos a paisagem vai mudando: o citadino cede lugar ao rural e, dentro deste, os campos de cultivo de Vila do Conde começam a destacar-se. Ladeadas por muros limitativos de campos de cultivo, as estradas são longas passarelas por entre o verdejante que ocupa toda a área visível. Em 20 quilómetros, aproximadamente, é um outro mundo tão distante na forma e conteúdo daquele de onde começamos. 

A fundação do Mosteiro de São Salvador de Vairão é anterior à nacionalidade, remontando a 974. D. Afonso Henriques, em 1141, deu carta de couto ao mosteiro, ocupando o perímetro as áreas das actuais freguesias de Vairão, Macieira, Fornelo e Gião. Foi neste espírito histórico que passamos a noite no 1º albergue.


Ambiente comum aos albergues.


Um "mojon": marcos que guiam o caminho e indicam a distância até Santiago de Compostela.

Cumprida a 1ª etapa, a ansiedade foi dando lugar à confiança. Para todos, era uma situação nova, de desconhecidos efeitos. Havia que assimilar rapidamente todas as novas cambiantes surgidas diante de nós, no caminho mental.

Como mais tarde aprendi, porque apreendi com as vivências posteriores, o caminho até Compostela não se conta em etapas, não se desconta na tabela de tarefas a cumprir: o Caminho, faz-se.

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