Foi neste caldeirão de incertezas
que nasceu o desafio de fazer parte da legião multisecular dos peregrinos a
Santiago de Compostela percorrendo o mítico numa das suas infindáveis
ramificações, o caminho central português.
A projeção da experiência
mostrava-a empreitada poderosa; com experiência de 1 a 2 dias de mochila às
costas transformar-me num caracol durante 10 dias era dose desconhecida - para os parceiros, também.
Todas as curtas experiências anteriores
de caminhada se me acrescentaram e contribuíram para, aos poucos, ir alterando o
foco, o ângulo com que via as coisas. Se, então, encher uma mochila de tralha e
enfrentar 10 dias de aparente tormenta seria dobrar o cabo da Boa Esperança, hoje
posso afirmar sem qualquer dúvida que, do mais simples ao mais tempestuoso dos trilhos,
começam todos da mesma maneira: com o primeiro passo.
Esquema altamente complexo e encriptado das coordenadas do Ponto de Encontro inicial.
Era uma operação desafiadora do ponto de vista social, da relação entre os operacionais destacados. Quem for capaz, que acompanhe o raciocínio:
- dois que se conheciam entre si, conheciam um dos outros;
- um, que conhecia o outro, não conhecia outros dois;
- um, conhecia os outros 3.
Tomando rotas diferentes, todos chegaram ao local destinado.
Tenho ainda presente na memória a saída de casa, do prédio e haver começado a descer a rua. Marcava o relógio as 6:10h. Não levava em mente qualquer tipo de condicionante que, a princípio, pudesse criar um ambiente de medo ou incerteza; pelo contrário, afirmo uma espécie de paz, serenidade; se calhar, numa atitude mais responsável perante o desconhecido, os sentidos deveriam estar mais alerta, despertos. Não era o caso: apenas esperava que as coisas acontecessem!
Desci a avenida da República, atravessei a ponte D. Luís, passei diante da Sé, desci à Bainharia, atravessei Mouzinho da Silveira e aportei ao Largo de S. Domingos para, juntos, subirmos no mapa, a pé, até Santiago de Compostela.
Para quem chegava dos lados de Canidelo / Candal o dia amanhecia assim.
Acordar cedo, levantar da cama e pôr as pernas ao caminho é das mais gratificantes recompensas a receber quando se percorre um longo trajecto. Seja em ambiente urbano ou rural, o encantamento é garantido com o nascer do dia, a luz a romper a escuridão, a cidade a acordar: um silêncio paradoxal por entre os prédios enormes, um carro de entrega de pão que passa na estrada, alguém passeia o cão enquanto fuma o primeiro cigarro do dia, de robe vestido. No campo, por entre manchas de bosque ou pinhal, o concerto da passarada num trinar multiplicado por mil, dez mil cantares diferentes, como um anúncio de boas vindas à luz.
Existe algo de mágico, impressivo, no amanhecer das cidades. Apenas a massa imensa dos prédios se oferece ao olhar do observador; contudo, é como se também eles nos observassem - é esse mutismo que desafia quem desperta com o dia.
Ferrol, manhã cedo, no 1º dia do Caminho Inglês.
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