O que desinquieta o Homem?

De onde brota esta disposição que corta a eito a inércia e revolve de cima a baixo a vontade, traçando paisagens desconhecidas na ambição acomodada dos dias?

Que perguntas faço, eu que me proponho a falar sobre 10 dias a caminhar de mochila às costas! Tentar explicar algo que nos ultrapassa é lutar com a falta de palavras para expressar o indizível - claro como a água!

Lembram-se daqueles momentos, algures num passado remoto entre a infância e a adolescência, quando o regresso da escola a casa era feito por caminhos que se tornavam infinitos na companhia dos compinchas da turma, como se o mundo todo passasse diante de nós sem darmos conta, diria, até, uma espécie de avanço-recuo constante? Como o exercício de subir os degraus de uma escada rolante em sentido descendente – ali, sempre no mesmo sítio, apesar do esforço contínuo das pernas?

É mais ou menos isso que tento explicar quando me perguntam o que pode existir de fascinante nesta tarefa de calcorrear quilómetros a pé.

Após estes anos todos a palmilhar terreno, continua a assombrar-me a facilidade com que a paisagem se abre diante de nós, extensa, num corrupio que aos poucos vai atenuando o esforço e, calmamente lançando amarras na compreensão, vamos tomando conta do caminho percorrido sem grande alarido.

Foram inúmeras as vezes, ao chegar ao local de início do trilho, que apontei o ponto mais elevado nas cercanias como o destino daquele dia. Não pretendia exibir o meu conhecimento (no caso: desconhecimento) profundo sobre as agruras que nos esperavam, mas sim criar ruído e confusão entre os parceiros.

Já estão a adivinhar, claro: foram inúmeras as vezes que, sem o saber, eu estava certo e havia adivinhado o ponto extremo daquele dia.

De regresso ao ponto inicial, as pernas a tremer e os músculos a quererem saltar corpo fora, olhava embasbacado o cenário e perguntava-me que doideira havíamos feito.

É evidente que deixei de fazer essa gracinha, até por rito supersticioso: era melhor não tentar o Diabo e ele pregar-nos com a tarefa de subir ao pico. Mas não resultava, se era para subir, então…era subir, que remédio.

Esta passagem por memórias das minhas caminhadas serviu, precisamente, para explicar essa dúvida que, tantas vezes, me colocam – o que te faz andar? E eu respondo – as pernas!

Assim regresso ao início: como não sei o que me desinquieta, desinquieto os outros – pelo menos, somos mais.

Caminho interior português, 2019 - 16ª etapa: Dornelas - Deseiro, Boquixón.

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