Barcelos - Ponte de Lima foi a etapa rainha, a mais longa das tarefas a cumprir. Para além disso, esteve um dia tórrido, de sol aberto, abrasando o ar de baforadas quentes do inferno que nem o diabo a dar arrotos.
Pouco após o início da jornada do dia, o céu apresentava-se assim. Saídos do ambiente urbano de Barcelos mergulhámos no verde minhoto por 33 km.
Os campos plantados produzem em mim uma sensação próxima da emoção; talvez uma reminiscência dos tempos em que estávamos ligados à terra, mais próximos do acto de lançamento da semente transmutado em milagre na colheita, uma aproximação ao acto criador. Basicamente, sou um agricultor reprimido.
Como sou choninhas por livros de relatos de viagem, transcrevo a seguir a introdução ao capítulo "Minho" num dos exemplares que possuo. É por demais evidente a similitude ao que os olhos vêm hoje.
"Estamos no Minho, chamado antigamente o eden das Hespanhas e agora o jardim de Portugal, pela cultura e exhuberante fertilidade dos seus campos, ainda assim com uma certa injuria para com o resto do paiz que todo elle, patriotismo à parte, pela natureza do solo, colocação geographica e indole dos habitantes, se poderia chamar sempre o verdadeiro jardim, á beira-mar plantado, se os seus destinos, ou antes os seus homens o quizessem lançar no caminho de um decidido progresso."*.
"Foi isto o que presenciámos nas poucas aldeas, que tivemos de atravessar. Manda a verdade porém que se diga que o aspecto d'aquellas povoações, olhadas em distancia, é alli mais agradavel do que em outras provincias. D'ahi os ataques de poesia bucolica, que nos assaltam em caminho." idem pág 177.
São inúmeros os "cruzeiros" por que passámos. Hoje, fazem parte da paisagem mas foram úteis em tempos antigos como marcos de orientação no Caminho.
Uma bebida fresca representava o Santo Graal naquele deserto em chamas. As labaredas do inferno rasavam o céu da boca e um sabor putrefacto alastrava às entranhas carcomidas e decompostas do nosso ímpio corpo. Visões terríficas de dor e sofrimento apoderavam-se do raro discernimento sobrante, conduzindo-nos à loucura do abismo. O desespero era palpável, tinha corpo, e escravizava-nos inclementemente. Antes do resgate, fomos 4 zombies rumando ao precipício da perdição.
A passagem pela avenida das Tílias, margeando o rio Lima, foi mais uma prova da tenaz resolução que nos animava; em mais uma tentativa maléfica de indução ao pecado, o demo fez-se anunciar em toda a sua plenitude, de amarelo travestido, qual camaleão, nas espumas paradisíacas da gravata de uma cerveja: à distância de uma braço, a cintilação do ouro líquido quase nos perdeu. Apenas a vontade férrea e indomável nos animava. Se a prova era essa, pois que viesse sob qualquer forma, estaríamos preparados.
"Taberna da Cadeia Velha": que sugestivo encanto para disfarçar esse verdadeiro antro pestilento que é o Inferno. Julgava o Cão Tinhoso que estávamos desprevenidos: "Uma rodada de finos, faxavôr!", surpreendemos a servil criatura antecipando os seus intentos. Ah!, mas que palermas julgando-nos caídos no canto da sereia demoníaco com o aceno mirífico da bebida refrescante. E, logo a seguir: "É mais outra rodada, faxavôr!" - se é para ajudar a tirar o mal do mundo, contem conosco.
Um dos estratagemas do Tinhoso. Tentando-nos com com um "fino", repetimos a dose para que sobrasse menos para outros incautos.
Talvez tenha exagerado na descrição...foi um dia quente, sem dúvida, mas acho que me entusiasmei. Ademais, tínhamos água nas garrafas.
O desgaste provocado pelo embate de frente com a tentação provocou danos cujos efeitos demoraram a sanar. Aqui, bravo guerreiro, ainda aturdido, exibindo o Boletim de Vacinas.
Chegados ao albergue, a seguir à ponte romana, logo encetámos caminho de regresso à outra margem, destinados à Pousada da Juventude por falta de cómodos. E foi isto: depois de uma etapa extenuante por alguma razão merecemos duplicar o percurso de entrada no centro de Ponte de Lima.
Até aqui, saídos de Vila Nova de Gaia, havíamos atravessado: Porto / Araújo / Ponte de Barreiros / Maia / Godim / Gemunde / Vilar do Pinheiro / Gião / Vilarinho / Ponte de Ave / Ponte de Arcos / Arcos / S. Pedro de Rates / Pedra Furada / Pereira / Carvalhal / Barcelinhos / Barcelos / Vila Boa / Lijó / Tamel / Aborim / Ponte das Tábuas / Outeiro / Grajal / Reborido / Sobreiro / Anta / Pedrosa / Ponte Srª. das Neves / Ponte de Lima.
Até cansa, só de ler. Merecedores de recompensa, certo? Sim, claro!, mas não a tivemos.
Em véspera de 25 de Abril, camaradas, pá... o país em festa, pá, camaradas, fascismo nunca mais!, pá...canta a "Grândola", pá...camaradas, viv'ó 25 d'Abril, camaradas...pá, PÔRRA! pá: NÃO HÁ ARROZ DE SARRABULHO! Restaurantes fechados em noite de véspera de feriado, pá...?! Atão, carago, foi p'ra isto que se fez o 25 d'Abril, pá?, e ninguém cuida do operariado, pá...a força proletária, camarada...quer alimento, comida, morfes...como é, pá?
- É p'ró rodizio!
- Também está bem.
*in Notas a lápis - digressões peninsulares. D. C. Sanches de Frias; pág. 175. Livraria de António Maria Pereira, 1886.




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