Dormir num albergue juntamente com outros peregrinos é correr o risco de dormir pouco, caso se seja sensível ao barulho; e se digo barulho, é de barulho que se trata. Mais de cinco pessoas a ressonar durante o sono é o maior castigo para os sono-leve.
Existe uma conjura não declarada entre os ressonadores, ainda que provenientes de zonas distintas do planeta; ainda que falantes de línguas estranhas; ainda que novos, ou velhos: a táctica é não deixar 5 segundos de silêncio entre dois roncos. Eu explico: enquanto o último roncador ganha fôlego para mais uma trombonada, aspirando ruidosamente o ar em volta, o colega do lado, solidário na ruidosa arte, ronca por sua vez, tonitroante e poderoso, qual trovão, passando ele à tarefa de encher de novo ar o aparelho roncador. A noite escura é um temporal entre paredes, um cataclismo arrasador, até o telhado treme.
Inclemente, um terceiro agiganta-se na grita noturna e, soluçando entre roncos, expele do fundo das tripas um vozeirão roncado e grave capaz de ameaçar o Adamastor. Quando isto acontece, o período entre roncos tende a ser maior; contudo, logo a voz das profundas troveja como anúncio de fim do mundo e o sono dos justos é perturbado. Tal como na guerra, após um intenso período de bombardeio advém a calmaria; apenas para recarregar a armaria e ruidosamente acordar a noite.
Manhã cedo, ao abandonar o albergue, avistei uma peregrina a soerguer-se de um incómodo banco corrido de madeira à nossa passagem, no corredor. Certamente não aguentou a ópera nocturna da camarata e preferiu espalmar o corpo nas tábuas duras.
Como é diferente acordar no campo!
Esta etapa iria levar-nos até Valença. Em pleno Minho, continuava a saga por entre o verde entusiasmante. A passagem por locais historicamente importantes é deveras enriquecedora e desafiante; é o reavivar de uma memória comum, um ponto quase indistinto bem lá no fundo da arca das lembranças, como se ali fôssemos encontrar uma parte de nós.
Pode até nem parecer, mas é bem retemperador caminhar assim.
Zona de bosques exuberantes, acompanha-nos um imenso clamor de vida que exala de toda esta frescura, um privilégio que nada nos exige, apenas se oferece para fruição. Desperdiçar esta dádiva é comer gelados com a testa e arrotar fluídos do intestino.
Há centenas de anos que os japoneses fazem banhos de floresta como terapêutica para problemas de saúde de vária ordem. Por cá, relacionado com os banhos, é mais despejar banheiras velhas e bidés partidos nos pinhais e florestas.
Cossourado é terra antiga, dos tempos de p'ra lá dos tempos idos. Foi couto instituído por D. Afonso Henriques em 1135, aparecendo já documentada no séc. XI. Nas inquirições de 1220 aparecia como Sancto Jacobo de Coissoirados.
Curiosidade, para os interessados.
Há capelas que fazem de tudo para dar nas vistas; estragar a fotografia ao rapaz...não s'admite!
Cumprir uma etapa a caminhar é...caminhar durante a etapa; para além disso é como cada qual quiser ocupar o tempo, não existe um padrão de comportamento. Quem quiser, vai a conversar com os amigos, ou em silêncio; sozinho, ou acompanhado; com os seus pensamentos ou apenas a viver o momento, sem nada a ocupar-lhe a mente (ou, pelo menos, a ocupar muito). Das experiências que já tive, posso afirmar que é um período a ser aproveitado ao máximo, a ser sugado, roído, absorvido com ânsia devoradora. A abismal diferença para o tempo vivido durante o resto do ano, deglutidos na correria louca que nos vai submergindo aos poucos na insanidade, deveria ser o mote para equacionarmos qual caminho queremos seguir.Os compadres no Caminho.
De um livro lido há pouco retirei este excerto, paradigmático das "novas" sensações com que vamos sendo brindados se nos aventurarmos de mente aberta - nada mais é do que ir disponível para ver, ouvir, perceber, sem pré-conceito, sem amarras intelectuais que tantas vezes nos atam à incompreensão.“Conhece aquela impressão de imensidade que por vezes nos surge a meio de uma caminhada? Uma espécie de vertigem perante a grandeza, quando sentimos o coração bater mais forte, em harmonia com o ritmo do universo. Alguns exprimem esta sensação como «Não estamos sozinhos», outros ajoelham-se para rezar a Deus, outros ainda aceitam o mistério tal como ele é, sem erguer o véu, concedendo às suas vidas a aventura do desconhecido.”*.
*in A magia do silêncio. Kankyo Tannier; Arena, 1ª edição (2018).








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