Durante a noite o pesadelo recorrente apareceu sob a forma de ementa. Foi um revés duríssimo na moral dos peregrinos. Ansiávamos pela chamada comida de conforto para afago do ânimo e lembrança do ninho caseiro. Uma terna blandícia nos corações despedaçados após longa jornada que já raiava a epopeia.

Novo dia, nova etapa, que o sol já desponta e não espera atrasados.
Na companhia de outros caminheiros rumámos fora Ponte de Lima - chegados com água na boca; saindo que nem ougados quinze dias perdidos no mato. E'ta provação danada!
 
Numa certa leitura, observar um magote de peregrinos é como observar formigas: mais perto ou afastados, acabam sempre por passar no mesmo carreiro. 

À saída de Ponte de Lima tivemos companhia durante alguns quilómetros; depois, como sempre acontece, a dispersão ganha efeito - uns, mais rápidos, outros mais lentos - para, no fim, no albergue próximo, acontecer de novo a reunião.

Manhã cedo começa o dia. O céu aparentava discordância com a nossa vontade, apresentado-se mal-disposto. A tonalidade azul do início das manhãs é como um bálsamo retemperador.


Atravessando a ponte sobre o Lima na companhia de outros caminhantes.


O carreiro de formigas. Camisolas ainda húmidas secam ao sol pouco visível presas nas mochilas.

Para este dia estava reservada a passagem da mítica Labruja, dois quilómetros em vertente: subir a encosta até ao topo e, depois, descer a encosta contrária. Simples!

Plano pormenorizadamente gizado para transpor a mítica Labruja. Usando a última tecnologia de georeferência, os cálculos obtidos, de elevada complexidade, foram de capital importância no sucesso da empreitada. 

 


A coragem levava os nossos nomes; a bravura, o peito ilustre lusitano. Lembrei a fala de um personagem de romance: "Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens."*. 

Quatro momentos distintos da subida da encosta. São perceptíveis as dificuldades motivadas pelo piso e grau de inclinação. De memória, a existência de um patamar intermédio a permitir o recobro de algum fôlego.


A meia encosta encontra-se a Cruz dos Franceses que assinala o local onde os retardatários das tropas de Napoleão, em fuga, na invasão de 1809, foram emboscados pela população e levaram uns carinhos amistosos.

Tal como disse o filósafo: "pinner's, baby, pinner's!"


No topo, um tanque de água fresca pornograficamente exposto aos peregrinos conduz ao extremo do cinismo a oferta assim plantada. Para elevar ainda mais a fasquia, sugiro que possa ser colocado um cartaz, ao início da subida: "Lá no cimo, mesmo lá no cimo, ÁGUA FRESQUIIIIIIIIIISSIMA!"

Transposto este obstáculo assemelhado a trabalho de Hércules, a toda a brida com Rubiães como destino e Saramago por guia:
"Vai primeiro a Rubiães, mas antes ainda tem de dar conta deste interminável murmúrio que o vem acompanhando desde Ponte de Lima, águas que escorrem dos declives, que vão correndo pelas valetas da estrada à procura de riacho que as receba, de regato que as abra, de rio que as envolva e transporte, de mar que lhes dê o sal. O viajante lembra-se das sequiosas terras do Sul, que mesmo no inverno secam se a chuva não cai constante, e recomenda aos montes e às ervinhas que desta água aproveitem enquanto a há, que a não matem nem desperdicem, que o mesmo seria perder sangue e vida.
Rubiães é um templo românico fechado. O adro está praticamente coberto de lápides sepulcrais, entre o antigo e o quase moderno."**. 

Igreja românica do séc. XIII. Nas cercanias da fachada, várias sepulturas provenientes de escavações no fim do séc. passado estão a céu aberto. Uma delas tem no seu verso um marco miliário.


Em andanças outras nestas terras minhotas, é perene o espanto por esta terra grávida de águas; milhentos...que digo: milhões! de regatos rasgando a crosta, misturando-se, vertendo-se em quedas, criando pequenos valados, num constante brando rumorejar.

Até ao albergue não houve mais qualquer outro acontecimento digno de...relevo. Foi um passeio calmo e entretido a recompensar o esforço feito na subida.

A descida para o albergue, o edifício do lado esquerdo na primeira fotografia; em baixo, o café-snack-bar-mercearia de apoio. 


Toda a zona envolvente do albergue resplandece verde, vivacidade e vida. Curiosamente, 3V's que poderiam ser o acrónimo para designar esta região. Da experiência que já tenho em albergues, posso assegurar que muitas cadeias de hotel dariam o mindinho e mais algum para se instalarem em zonas onde já fiquei albergado, tal a excelência da envolvência. 
 

Pormenor do interior do edifício de apoio ao albergue. É uma mais valia em zona onde não existe mais nada à volta a que recorrer para poder comprar víveres. Nalguns lugares, apenas o albergue!

Para terminar o relato desta jornada cansativa, deixo em forma de mistério uma adivinha: das fotografias abaixo, uma delas é falsa. qual?


*in Grande sertão, veredas. João Guimarães Rosa; pág. 24. Companhia das Letras, 1º edição (2019).
**in Viagem a Portugal. José Saramago; pág. 51. Círculo de Leitores, 1º ed. 

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