O Caminho prosseguiu por S. Bento da Porta Aberta, em Pecene, Gontomil, Fontoura, Paços, Ponte da Pedreira, Tuído e Arão, antes de Valença. Rasgando paisagens rurais, adentrando campos e aldeias escondidas do tempo, seguíamos inebriados com os ventos de novidade e espanto. A pouco mais de 100 quilómetros da origem, tudo tão diferente, renovador da alma na sua simplicidade.
É diferente o silêncio no meio da natureza, transmite uma agradável sensação de comunhão.
É quase um regresso ao passado a passagem por estas aldeias encontradas no caminho; não que a modernidade não lá tenha chegado, mas sim porque a simplicidade em torno do essencial se mantêm, apesar das televisões, dos telemóveis e outras particularidades actuais.
Rompendo por entre campos através de singelos carreiros, somos assombrados por esta central de informações. Não consigo identificar a aldeia, mas acho que não vale a pena: fica a magia de ter acontecido.
Não sei onde li que o Caminho é uma metáfora da vida, e fiquei a pensar (concedo que possam achar ficção!): o que fazemos na nossa rotina diária que não se faça no Caminho? Não andámos, também, à procura de proteção e acolhimento, como o peregrino de albergue em albergue? Não carregámos fardos e pesos na vida tal como a mochila do peregrino pesa nos ombros? Quem pensa que o desânimo, o cansaço e a irritação não atingem o peregrino?
No meu primeiro Caminho, o Central português, a ânsia de chegar a Compostela foi normal para um aprendiz destas coisas; a sucessão de dias é feita em contagem decrescente, ansiando a chegada como um prémio.
Lembro que à chegada à praça do Obradoiro um escocês, com que nos havíamos cruzado anteriormente, perguntar-me o que sentia após chegar a Compostela. Respondi-lhe ainda não ter a certeza, pois sentia-me estranho mesmo após a "vitória" da chegada. De Kilt vestido, certamente como cerimónia de chegada, adiantou-me que era isso mesmo o que eu não estava a conseguir definir: só dali a uns tempos é que iria começar a sentir os efeitos de mudança provocados. A ele, que já tinha 5 ou 6 Caminhos, foi assim que aconteceu - garantiu-me. E hoje, às portas de iniciar o meu 5º Caminho, confirmo que o homem da terra do scotch estava certo.
Um dos temas recorrentes nas conversas sobre o Caminho é se de facto "se sente alguma coisa" - costumo responder que sim: sente-se o peso da mochila nos ombros, a água da chuva quando cai, os raios de sol...Instala-se a decepção, pois anda em torno do Caminho, para alguns, um ambiente místico e etéreo, pleno de unicórnios voadores e fadas, gnomos e outros que tais. Percorrer a rua de Cedofeita, no Porto, traçada sobre uma via muito antiga de saída da cidade, não tem nada de místico; atravessar o polígono industrial de Ourense, ao meio-dia de um dia de sol pleno, sem sombras, não tem mesmo nada de místico; depois de dias de chuva já não ser capaz de discernir se a condição "molhado" é a condição natural e habitual, não é nada místico. Quando se procura a mudança a partir do exterior o resultado só pode ser a decepção, pois toda a mudança vem de dentro para fora: operar alterações é desconfortável, obriga a mudanças que o comodismo instalado não deixa.
Este pedaço de má prosa serve para situar o nosso compromisso no Caminho: estás dispost(a)(o) a deixar-te surpreender? A questionar, sem barreiras ou defesas, aquilo que para ti é adquirido? Não significa aderir automaticamente a qualquer estado de espírito que surja, mas sim não o reprimir sem análise, caso aconteça. E é aqui que quero chegar: a progressiva mudança das percepções (sem recurso a aditivos, entenda-se!) que esta prática de caminhada dias a fio produz - temporal e espacial, as referências transformam-se.
"...e alguém me gritava, com voz de profeta / que o caminho se faz entre o alvo e seta." - Quem me leva os meus fantasmas, Pedro Abrunhosa.
Qualquer ponto de chegada é, simultaneamente, um ponto de partida. Os extremos tocam-se. Não há chegar, isso é o fim - e o fim não existe para quem está vivo -, há que continuar, uma renovação constante do nosso horizonte: por cada metro percorrido, é um metro a mais que avistámos ao longe; por cada metro percorrido, é um metro a mais que acrescentámos ao caminho; 1 metro é, em si, o infinito: quanto é metade daquele? 50 cm; e metade destes? 25 cm; e metade destes? 12,50 cm, e por aí fora, ad aeternum...
Em 2019, um dia após iniciar o Caminho Interior Português, a Maria José enviou-me uma mensagem que ainda guardo no telemóvel: "Caminhando se aprende a vida, caminhando se conhece pessoas, caminhando se saram as feridas do dia anterior. Caminhando, se observa uma estrela, ouvindo uma voz, seguindo as pegadas de outros passos. Caminha, procurando a vida, curando as feridas deixadas pelas dores. Nada pode apagar da memória um caminho percorrido.".
Hei de voltar a este tema do Caminho.
Para já, retomando o diário: andámos um pouco à toa para encontrar o albergue de S. Teotónio, em Valença. De todos os albergues em que fiquei, talvez tenha sido o mais mauzinho; desconheço o seu estado actual mas, na altura, deixou a desejar: bastava uma ideia assaltar-nos de súbito o cérebro para o beliche tremer e guinchar por tudo o que fosse aparentado a porca e parafuso. A zona de banhos era comum a ambos os sexos: calma, mentes perversas - os duches eram individuais! Por via dessa ambivalência, a zona posterior à caixa do chuveiro, ainda dentro da individualidade aduzida, era tão estreita que se fosse necessário olhar para as unhas dos pés cabeçaríamos a vidraça da porta - estou a exagerar apenas um pouquinho, era mesmo muito, muito estreito!
Pacientemente aguardando a abertura do albergue. É um tempo que aprendemos a degustar: a apreensão do tempo vai-se alterando com o decurso do Caminho. A urgência de chegar dilui-se, aos poucos e poucos, e cada segundo é vivido intensamente como fazendo parte do Todo.
Libertar os pés da pressão das botas de caminhada é uma sensação 50 vezes mais aliviadora que alargar o cinto das calças para libertar a pança gulosamente cheia de feijoada ou cabidela!
Na etapa seguinte abandonaríamos Portugal. Ao invés de tantos milhares que o fizeram com o credo na boca, fugindo às forças repressivas da ordem em tempos não muito distantes, foi para nós um mero acto de passagem de tabuletas, sem desprimor para o que elas representam. Nem sabemos a sorte que temos! Nunca é demasia a gratidão por um acontecimento fulcral como o 25 de Abril de 1974. Ao contrário do pensar de muita gente (e ainda bem, com vantagem para mim!), o 25 de Abril cumpriu-se: fazer cair o regime, estabilizar a ordem e entregar a escolha ao povo; os militares retiraram-se para os quartéis e entregaram ao povo a escolha dos seus representantes. Devolver a liberdade de acção, escolha e pensamento - eis o 25 de Abril. O que os sucessivos incapazes não souberam criar, fazer, governar não é culpa do 25 de Abril: é culpa de todos nós!
Mas, mesmo com todas as imperfeições, irritações, frustrações, não há como comparar o estado Liberdade com qualquer outro.
Nos idos anos 60, "Um português deixou assim seu Portugal".
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