O romper da aurora no dia 24.


De novo o tema "Das manhãs." Cedo erguidos, logo a paisagem nos sugava confundindo-se em nós, pintalgando-nos com as cores da manhã nascente. Sai em meu socorro a magistral descrição transcrita da obra de Abel Salazar, desesperada tentativa minha em querer aproximar o que dizem os meus lábios daquilo que viram os meus olhos. 

"Manhã.
Névoas húmidas e cendradas pesam sobre a terra entorpecida dos véus da noite; resplendente, o sol ergue-se no horizonte numa orgia de oiro. A aleluia rósea canta no vale; na folhagem há oiros novos e nas eiras cantos heróicos de galos em glória; o sol ascende a pouco e pouco enquanto nos céus o cobalto da manhã, envolto em brumas argênteas, em brumas róseas, em brumas de oiro, num manto de luz com diamantes de orvalho cintilando em fetos, em giestas, em matos, em silvados, sai da letargia da noite; e o vale sorri na luz e na atmosfera, sorri em toda a parte, descerrando os seus véus, sob a aleluia de oiro da manhã virginal.

Doirados de âmbar fluído, róseos de âmbar embebido de carmim, âmbares enverdecido, âmbares impregnados de verde puro, âmbares que se diriam fundidos com rubis; violáceos translúcidos de cristal de rocha fluído, amarelos de ametista e tonalidades profundas de turquesa em fusão luminosa; verdes-puros, crus, de esmeralda, cintilantes; verdes de ocre, verdes de bronze, verdes de oiro; irisações nacaradas de concha transparente coada de luz: fulguram, lampejam, tremem em névoas, vibram, na folhagem das carvalhas, na copa dos castanheiros. nos pomares, nos pinhais, nos matos, nas calvas polidas das rochas prateadas de líquenes, bronzeadas de musgo, no dorso violáceo das serras distantes, diáfanas sob o manto de luz; e nas capelas brancas ébrias de sol, em campanários brancos ébrios de luz, em coleios de estrada alvas de pó, toda uma orquestração fluida de cores alegra o vale com o seu crescendo (...).

Por toda a parte o vale em festa; tudo é vibração, jovialidade, confiança, sob a luz cantante, na poeira de oiro e de âmbar fluido, nas searas e nos bosques, e nas serras; e tudo é força, seiva e vida, tudo esplendor, magia, na aleluia, do dia que começa..."*

E é isto!

*in Recordações do alto Minho arcaico. Abel Salazar; pág. 63/64. Campo das Letras, 1ª ed.

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