Passar em Barcelinhos é jantar no "Cantinho do Peregrino". Local simpático e singelo, é já pouso mítico de todos os peregrinos que demandam o Minho naquela zona. Conhecem aquele provérbio: "É o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa"?. Veio aqui buscar inspiração: "É o mesmo que passar a Barcelinhos e não ir ao Cantinho.".
Houve alguém que se enamorou pela aguardente...diacho!, quem foi?

Foi uma constante: a prestigiar os locais de passagem com a nossa presença.

Creio que foi a partir daqui que me caiu a ficha no parco entendimento que me vai restando; até então, havia sido a euforia da surpresa, a aventura juvenil, o passeio da escola; perspectivar os dias seguintes no mesmo molde dos dias anteriores foi uma experiência diferente de tudo o que havia vivido.
Não apenas a deslocação do local físico das andanças habituais, a deslocalização do meio conhecido; isso, acontece nas férias. Algo mais profundo, ainda pouco nítido, começava a insinuar-se no espírito, a incomodar a apatia reclamando atenção.
Um estar que questionava, despudoradamente inquiridor, e ao qual não prestava atenção mesmo sabendo que era comigo. Somos especialistas em auto-boicote!

A dedicação à causa apenas enobreceu a conduta dos 4 bravos: nem o Porto-Belenenses em directo na TV; nem a diabólica tentação da Feira das Cruzes, no outro lado do rio; nem as espampanantes decorações coloridas no seu delirante chamego de luxúria e perdição foram pérfidas tentações bastante para desviar do pio caminho as 4 almas decididas e imperturbáveis - foi mesmo o cansaço!

Um curto passeio no largo dos bombeiros, em Barcelinhos, para ajudar a digestão. Em destaque, o multicolorido das luz sob o fundo negro da lascívia e da imoralidade. Em pleno acto de contrição, o Sandro, dedicado servo do Senhor, foi quem mais sofreu. RESPECT!

Um grupo de brasileiros tardios causou alvoroço com a sua chegada ao albergue: sem camas disponíveis para todos, restou-lhes esticar 2 colchões no chão do hall e por ali ficar.

Próxima etapa: Ponte de Lima. À laia de spoiler posso adiantar, desde já, o crime de lesa-majestade que iremos viver no final da etapa. Oportunidade para os mais sensíveis abandonarem a leitura por aqui, recomeçando-a na próxima etapa. Quem não o fizer, estará por sua conta e risco - eu avisei!

24 de Abril, dezassete anos depois do 2º milénio da visita do Senhor.

Corria célere o mágico despertar da alva e o trinado rítmico da passarada espraiava dolentes melopeias por sobre os campos úberes da fecunda terra minhota. (Eu avisei: por sua conta e risco!) 

Agora, a sério: saídos do albergue, manhã cedo, passámos o Cávado por sobre a ponte medieval, para Barcelos. Sob um céu ligeiramente nublado, a cidade acordava lentamente para mais um dia de labuta. E nós já a caminho...

Igreja do Senhor Bom Jesus da Cruz, séc. XVIII, Impressiona pela robustez das paredes interiores.

Barcelos é uma terra estranha; cenas altamente cósmicas e influências gravitacionais de onda curta aqui ocorrem. Há cenas a acontecer durante a noite e que ninguém explica...é preciso esclarecer o povo e barrar a onda escura e negra da ignorância. 

Cenas altamente cósmicas: não sei o que são, mas se os ignorarmos eles não se mexem.

"Emquanto se anda a pisar terras estranhas, vistas pela primeia vez, o espírito, entontecido pela scintilação do imprevisto, goza tão alarmado e sôfrego, que todo êle desliza, fugaz, pela fácil aparência irisada das cousas transitórias, as quais, passando por nós como relâmpagos, lá ficam para trás sem as termos vincado com o nosso comentário enternecido a invadi-las de entendimento e de estima penetrantes. Só depois, mais tarde, reflectindo, nos apercebemos do que vimos, do que sentimos, - mais tarde, quando analisamos, miúda, demorada e saboreadamente, as imagens belas trazidas connosco dessa correria luminosa e vertiginosa."*

O excerto acima é demonstrativo do estado de torpor que nos assalta diante da precipitação do olhar pelo novo e distinto. E então, só depois, no remanso das ideias, damos conta do quanto nos insuflámos de novidade. 

Creio que é no Ensaio sobre a cegueira que Saramago escreve: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.".

Em terra de galo, bem podia ser a capa da próxima cassete do conjunto "Os Arroz-de-Cabidela".

*in Jornadas em Portugal, Antero de Figueiredo; pág. 3. Livraria Aillaud & Bertrand, 1919.

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