Quase a sair de Portugal, atravessando partes dos distritos do Porto, Braga e Viana do Castelo, passámos por alguns dos templos dedicados ao culto de S. Tiago nesta parte do território. Contando-se por algumas dezenas, são reveladores da devoção que o povo demonstra pelo Santo.
Socorrendo-me de ajuda alheia, "Assim, só no distrito do Porto temos os seguintes: Custóias; Milheirós; Rande; Sendim e Pinheiro (na região de Felgueiras); Cernadelo e Lustosa (na região de Lousada); Subarrifana, Capela, Fonte Arcada e Valpedre (na região de Penafiel); Figueiró (na região de Amarante); Mesquinhata e Valadares (na região de Baião); Carvalhosa, Figueiró e Modelos (na região de Paços de Ferreira); Bougado, Burgães e Carreira (na região de Santo Tirso); e Labruge e Amorim (na região de Vila do Conde), já não muito distante da Póvoa de Varzim.
Por sua vez, em relação ao distrito de Braga temos: Esporões, Fraião, Priscos, Santa Lucrécia de Algeriz e Braga-cividade (tudo na área da capital minhota); Aldreu, Cambeses, Carapeços, Cossourado, Couto, Creixomil, Encourados, Feitos, Sequiade e Vila Seca (na região de Barcelos); Candoso, Lordelo e Ronfe (na região de Guimarães); Arcozelo, Atiães, Carreiras e Sabariz (na região de Vila Verde); Caldelas, Goães e Vilela (na região de Amares); Chamoim (na região de Terras do Bouro); Guilhofrei (na região de Vieira do Minho); Lanhoso e Oliveira (na região de Póvoa de Lanhoso); Faia (na região de Cabeceiras de Basto); Gagos e Ourilhe (na região de Celorico de Basto); Cepães (na região de Fafe); bem como Antas, Areias, Carreira, Castelões, Cruz, Gavião, Mouquim e Outiz (na região de Vila Nova de Famalicão).
Entretanto, no distrito de Viana do Castelo foi-nos possível apurar a existência de oragos dedicados ao culto de S. Tiago nas seguintes localidades: Anha, Cardielos e Castelo de Neiva (na região de Viana do Castelo); Brandara, Cepões, Fontão, Gamieira e Poiares (na região de Ponte de Lima); Sampriz e Vila Chã (na região de Ponte da Barca); Carralcova, Cendufe e Tabaçô (na região de Arcos de Valdevez); Infesta e Romarigães (na região de Paredes de Coura); Cristelo (na região de Caminha); Nogueira e Sopo (na região de Vila Nova de Cerveira); Boivão (na região de Valença); Anhões e Pias (na região de Monção); e Penso (na região de Melgaço)."*.
Para além da miríade de locais de culto, causa também espanto a prodigiosa inventiva para apodo das localidades. Há tempos, para outra publicação, coligi de um guia algumas pérolas que ora partilho:
Anhões, Badim, Bico, Labruja, Alfarela de Jales, Abaças, Boelhe, Benlhevai, Aboim das Choças, Bunheiro, Serapicos, Bubadela, Unhos, Arco da Calheta, Arrouquelas, Pocariça, Alcongosta, Sobral de Papízios, Bordonhos, Abiul, Souto da Carpalhosa, Brinches, Montoito, Juromenha, Canhestros, Ranhados, Fataunços, Bugalhos, Minhocal...
(dez segundos de descanso)
...Talharezes; Jolda-Madalena; Esmorigos; Vinha Velha; Fonte de Olho; Mentrestido; Cossourado; Anho Mau; Bragadola; Lugar do Reirigo; Angustias; Escadabouca; Estanteiras; Loderro; Sobradelo da Goma; Berraria; Serafão; Outeiro da Casqueira; Quinchães; Porinhas, e, last but not least, dos meus preferidos: Mafreca.
A saída de Valença não ofereceu dificuldade: entrar por uma das portas da fortaleza e sair por outra, no sentido do rio Minho. Percorrendo a ponte, logo estaríamos na Espanha.
Tudo pela verdade, nada mais que a verdade: daqui se prova a lealdade ao rigor histórico que nos animava - à saída do albergue bastava-nos ter virado à direita e logo estaríamos na ponte de travessia do rio Minho; com denodo, subimos até à porta de entrada na fortaleza, percorremos o seu interior, e saímos mais adiante, na porta situada no canto superior direito do mapa. Se era para abandonar a pátria, seria em grande estilo!
A tropa, em marcha. Galegos: temei!
Parece o portão dos Armazéns Portugal - tudo em electrodomésticos. Chiça, que falta de gosto.
De novo, e sempre, o prazer das manhãs. A cidade está a despertar, o sol há algum tempo que desponta no horizonte e a luz derramada por sobre a terra é inebriante. O frescor contrabalança a euforia de vida por mais um dia que surge. É ser figurante de passagem numa tela. Lembram-se do videoclip de "Take on me", dos A-ha? Um personagem real acaba arrastado para um livro de banda desenhada e todas as peripécias lá se desenrolam, nesse estado desenhado? Pronto!, é mais ou menos isto: não somos de lá, mas estamos lá!
Do outro lado, a mítica Tui que, a par de Vigo, foram o máximo de cosmopolitismo a que muitos podiam almejar nos anos 70/80, eu incluído. Mas quem nunca foi a Tui / Vigo nessa altura, não sabe o que é viajar - Tui / Vigo eram o Mundo!
O rio Minho, como fronteira.
"Quantas vezes atravessei eu esse Minho fronteiriço para peregrinar pela verde e amável terra da Galiza? Sei apenas que lhes perdi a conta. Mas a comoção é sempre a mesma. Como a daquele que volta a pisar o velho solar longínquo e por onde os passos acordam ecos dum património que, à distância dos séculos, ainda se conserva vivo! Na palpitação do sangue e da voz, na lição das pedras e dos pergaminhos..."**.
Há uma sensação que me assalta sempre que entro na Galiza, como se sempre dali tivesse sido. É como se me movesse numa terra que sempre conheci, interagindo com pessoas que poderiam ser meus vizinhos em Portugal. Eu sei que o histórico de conhecimentos adquiridos se traduz num manancial de informação capaz de influenciar a apreciação; se leio sobre D. Afonso Henriques e sua mãe; se conheço a dependência do condado portucalense ao reino de Leão; se reconheço a proximidade linguística, etc...mais disposto estou a "apreender" essa proximidade. Mas, é algo mais...
Há uns anos, no Caminho Inglês, ao chegar ao albergue em Bruma, o hospitaleiro, um sexagenário galego, frenético e seco de carnes como se fosse um minhoto frenético e seco de carnes, ao saber que eu era português, disse: "Portugal e Galiza são a mesma coisa, deviam estar juntos.", e eu não notei qualquer sinal de fingida simpatia, antes a percepção de um sentimento comum, o reconhecimento de um afastamento, uma perda que mutilou um corpo. É essa sensação que me assalta sempre que regresso à Galiza, como se voltasse a casa da Mãe.
Chegados ao cruzamento dos Sete Camiños, a Ponte de São Telmo, ou das Febres, em O Porriño. É assombroso: quase novecentos anos decorridos e milhões de Caminheiros por lá passaram - o arco temporal histórico permite-nos fazer parte desse assombro!
A foto acima representa o local onde, em Abril de 1246, faleceu Pedro González Telmo, mais tarde São Telmo e patrono de Tui e Frómista, de umas febres que o assolaram a caminho de Compostela. Hoje, a pequena ponte de madeira está sobreposta no arco de pedra da primitiva. Uma pequena mensagem, muito curiosa, marca este ponto: "Caminante: aquí enfermó de muerte São
Telmo, en abril de 1246. Pídele que hable con Dios en favor tuyo”. Não custa tentar...
Numa passagem inferior de estrada estavam grafitadas estas frases, em ambas as paredes: "Onde vai aquil peregrino, meu peregrino onde irá, Camiño de Compostela eu sei que ali chegará... Bo Camiño e un desexo." e " Peregrino: que véxalo ceo na terra cando teus ollos divisen as torres de Compostela.". Quando, do meio do nada, surgem alusões que contextualizam o que estamos a fazer é arrepiante pensar como seriam as deslocações há 500 anos, p.ex.: marcadamente de cariz religioso, sim, mas é absurda a dimensão da façanha se lida com os olhos de hoje. Os perigos eram extremos - animais selvagens e ladrões; as certezas de chegada eram uma névoa - todos os dias eram ponderadas; ter algo para comer no fim da jornada dependia da bondade de quem encontrassem - se dessem caras com alguém.
Se bem que na prática em nada se possa comparar com as facilidades modernas ao nosso alcance, a essência anda lá perto: abrir o horizonte mental, confinado às delícias do imediato, do já feito, do antecipadamente testado e ajustado aos nossos "padrões de qualidade" e experimentar o desconforto da confrontação interior, do assalto às "certezas absolutas" com que nos fomos construindo. Ancoradas na infalibilidade das nossas acções, falsamente assim percepcionadas, acabam por ruir com estrondo quanto mais insistimos em mantê-las: se sujeitas à inquirição brusca; ao súbito "porquê?"; à dúvida que se ergue, imparável e desafiadora.
Sim!, pode ser uma renovação interior, uma espécie de "Querida, mudei a casa" do espírito.

Uma pausa no caminho: come-se uma sandocha, manda-se um bitaite e ala, moleiro que se faz tarde!
*in Por caminhos de Santiago - itinerários portugueses para Compostela. Carlos Gil e João Rodrigues; pág. 189. Publicações D. Quixote, 3º ed. (2000).
**in Um português nas espanhas. Artur Maciel; pág. 17/18; Livraria Bertrand (1969).
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