A noite no albergue, em Pontevedra, adquiriu foros de algazarra. Um grupo de portugueses improvisou um mini sun set e o vinho rolou farto numa espécie de rave. Pessoalmente, desagradou-me a experiência: melhores momentos e locais para este tipo de acontecimento estarão disponíveis em qualquer outro ambiência que não num albergue de peregrinos. Tenho para mim que o recolhimento proporcionado pela experiência deve ser observado e respeitado. Lembro de um dos mais entusiastas ter afirmado: "Isto é o Caminho!". Já então, marinheiro de primeira viagem, a afirmação parecera-me tonta e desenquadrada da realidade. Hoje, posso afirmar que, mantendo a opinião, a reforço com a experiência de outras diversas experiências.

Igreja da Virgem Peregrina, ou Capela da Virxe Peregrina,(séc. XVIII), em galego. 


Para uma experiência deste tipo não é necessário agregar qualquer pendor religioso, espiritual ou místico à caminhada. Não existe uma "verdade" que valide a intenção como a única verdade a ser considerada, apenas a vontade de experienciar a vida partindo de outras perspectivas, de um outro olhar, e deixar-se invadir pela diferença; e reconhecer essa diferença é assumir que estamos dispostos a mudar, caso seja o caminho a que nos vamos conduzindo, e não estagnar num charco de certezas cristalizadas. Toda mudança é feita a partir de dentro, da revolução a que nos vamos sujeitando interiormente - não tem necessariamente que acontecer...mas pode acontecer! É este momento que algumas pessoas questionam a quem fez o Caminho: "É verdade que se sente alguma coisa?", como se unicórnios voadores estivessem à nossa espera; coros celestiais de serafins entoando música sacra aos nossos ouvidos; como se levitássemos, tranquilos, em vez de cansar os pés, pernas e corpo em milhares de passadas durante o dia. 

Puente de O Burgo, sobre o rio Lérez, em Pontevedra. De origem romana, foi reconstruída no séc. XII.

É, geralmente, a manifestação do medo de confronto consigo que esta pergunta encerra: a mudança traz desconforto, pois mexemos, remexemos e criámos novos espaços, áreas, ideias. Como calçar uns sapatos novos, duros, hirtos, sem a forma dos pés, que magoam; os antigos, cambados, tortos, gastos, adequavam-se na perfeição à forma do pé depois de tantos anos de uso - tal e qual como as ideias!

É mais fácil esperar que a mudança tenha origem externa, vinda de fora, sem desarrumar para não termos a maçada de arrumar de novo, ora com outras ordens e formatos, criando esquinas angulosas e deixando para trás as polidas.

Não fora a manhã ainda imberbe, coberta pelo negrume da noite, e eu diria que o avô levava os netos à escola. À saída de Pontevedra.

Quando assim acontece, a mudança não é estrutural, não tem fundamentos, é puramente fachada pintada para agradar mas prestes a ruir na próxima tempestade.

Gabriel, o Pensador, em "Até Quando?", declara muito acertadamente a postura de que tantos de nós (ou, até todos!) andam a fugir, refugiando-se em placebos à laia de solução para os problemas:

"Muda que quando a gente muda o mundo muda com a genteA gente muda o mundo na mudança da menteE quando a mente muda a gente anda pra frenteE quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem curaNa mudança de postura a gente fica mais seguroNa mudança do presente a gente molda o futuro"

A procura externa da solução para os entraves que nos apanham no caminho não passa de remédio fora de prazo ou placebo que não cura; antes, uma simulação de fraca qualidade da solução procurada, um empurrar com a barriga.

Andámos constantemente a adiar o encontro, olhos nos olhos, com o que nos atrapalha, desafio que a todo o custo pretendemos evitar. A confrontação interior - para alguns, com situações muito marcantes e traumatizantes - coloca as falhas, azedumes, fracassos, toda a zona negra em que se movimentam as nossas ideias bem diante do nariz, expostas. É duro; cruel; severo, pois caímos do altar em que nos colocámos, isentos de erros e falhas, esbardalhando todo o orgulho pelo chão em minúsculos bocadinhos de nós. 

O tempo todo para pôr ordem nas ideias, fluxo no pensamento, arejar as intenções, sentir o passar do tempo.


A "falta de tempo" é a justificação mais usada para não fazer o que deve ser feito, para encobrir a mentira: a de não questionarmos sobre o rumo seguido; para além dos problemas surgidos da vivência diária, da resolução de conflitos que carecem da nossa atenção e empenho, existe uma parcela em nós que é preguiçosa, comodista e fatalista - "... é assim, as coisas são assim!", é a atitude que corta a direito no plano das intenções.

Depois, em reforço desta tese, atribuímos uma importância desmesurada, esdrúxula até,  a estas questões a fim de justificar a não-acção.

Pergunta singela, como se eu fosse muito burro (ainda mais do que aquilo que estão a pensar!): não é importante procurar defender-me da agressão a que estou sujeito pela velocidade e obrigação de resposta a que o mundo actual me obriga? Pois se, p.ex., eu procuro fazer as refeições completas durante o dia, provendo o meu corpo das substâncias necessárias à sua manutenção e equilíbrio, qual a diferença para a defesa que faço da saúde mental procurando aquilo de que necessito para a sua sadia manutenção? 
 

Desistes, desistes?

Por uma razão simples e na qual estamos completamente enrodilhados: temos tempo para os outros e não o temos para nós; abdicámos dele sem o cuidado da reposição necessária à nossa vida. E quando, finalmente, o ritmo louco parece desacelerar para nossa fruição, são horas de deitar e apagar a luz, para no dia seguinte correr tudo igual outra vez. No limite, podemos dizer que a morte está à porta e, só então, nos lembrámos do que ficou por fazer.

É esta chapada na consciência que procurámos ignorar quando abdicámos do silêncio, do campo vasto que ele abre à nossa frente para nele depositarmos o que carregamos a mais, o excesso que não queremos deixar para trás, mas que apenas "se nos acrescenta, não acrescenta".* 

Já todos vimos estas cenas: quatro pessoas sentadas à mesa, no restaurante ou café, cada uma agarrada ao seu telemóvel; a carruagem do metro composta de passageiros e, talvez, 90% deles agarrado ao telemóvel; o reflexo pavloviano observado numa percentagem elevadíssima de pessoas que entram no transporte público - sacar do telemóvel e fazer morrer nele o olhar.

O scroll é o maior criador de ansiedade da era moderna; é o grande disfarçador usado por quem desaprendeu a usar o tempo e não sabe o que fazer com o silêncio - e, depois, "não tem tempo"!  A necessidade de ocupação permanente dos sentidos ou a sua permanente estimulação são uma bomba relógio para o aparecimento, em poucos anos, de estados depressivos. 

Mesmo em multidão é possível buscar o silêncio e, daí partindo, buscar o Todo que nos anima, independente do atributo que lhe queiram dar.


O silêncio propícia o mergulho em si próprio, e o mergulho poderá levar-nos ao silêncio - este silêncio é muito mais do que a mera ausência de ruído. 

"Comecemos por deter a correria física a que obrigamos o nosso corpo. Quando este está parado, quando não necessitamos de prestar atenção a nenhuma outra actividade senão à nossa respiração, é muito mais fácil para a nossa mente abandonar a sua correria habitual, embora possa levar algum tempo e implique alguma prática.".**

Aqui, regresso ao início da publicação e à descrição da fuga constante em que vivemos quando, para isso convidados, fugimos da oportunidade concedida e vamos, passivamente, enfiar-nos na boca do lobo.

Desiquilibremos a vida a nosso favor.



*in Pensar. Vergílio Ferreira. Bertrand Editora, 6ª edição (1998)

**in Silêncio, o poder da quietude num mundo repleto de ruído, Thich Nhat Hanh. Editorial Presença, 1ª edição (2023).

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