Pelas ruas da milenar Tui. Ao centro, a Sé, Catedral de Santa Maria de Tui, edifício do séc. XII.
Como ficar indiferente ao peso histórico destes lugares, ainda que mais de mil anos preencham camadas de vida que os afastam de nós na sua originalidade? Não será possível tal distanciamento a quem se sente furiosamente curioso deste saber, das partidas e chegadas criadoras do rumo traçado até nós.
Historiando um pouco, para contextualizar: D. Teresa foi filha ilegítima (como se dizia na altura) de Afonso VI, rei de Leão, Galiza e Castela. Coube-lhe, em sorte, ser dada em casamento a D. Henrique de Borgonha, cavaleiro francês que chegou à península para ajudar na luta contra os mouros. Ela, com 13, e ele com 24, tornaram-se donos e senhores do condado de Portucale, território do reino da Galiza compreendido entre o Minho e o Vouga e, um pouco mais tarde, alargado até ao Tejo. Infanta do reino de Leão e condessa do condado de Portucale, neste governou como raínha após a morte do marido.
São em demasia as confusões e imprecisões sobre o regime legal do condado: de pré-independente à total subserviência à irmã Urraca, filha legítima do mesmo pai e raínha de Leão, as lutas, traições e conluios acabaram por esbater-se, em parte, no correr do Tempo e diversas teorias não produzem uma certeza sobre a questão. Para o caso, importa reter que o único varão sobrevivente dos vários nascidos foi o nosso 1º, D. Afonso Henriques, que logo tratou de se auto-intitular cavaleiro e fazer pela vida. Filho de um francês oportunista e caça-dotes, e de uma filha fora de casamento do rei Afonso VI, a infância poderá ter sido um caldeirão de emoções, a fazer fé nas teorias actuais da pedo-psico-pediatria. Ou não... O resto, é conhecido.
Outros malucos: a Via XIX era uma estrada romana do tempo de Augusto que unia as cidades de Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga), passando por Ponte de Lima, Tude (Tui), Turoqua (Pontevedra), Aquis Celenis (Caldas de Reis), Iria (Iria Flávia) e Lucus Augusti (Lugo).
Em cima, as principais estradas romanas na Hispânia; em baixo, a roxo, a Via XIX. (fonte: Wikipédia)
Regresso ao assombro inicial de percorrer estes locais plenos de história: agora, os romanos.
O que estes manos fizeram foi de loucos! A visão estratégica de alongar as estradas para chegar mais longe com as legiões e, assim, dilatar e perpetuar o Império. Lendo um pouco das técnicas usadas, e em desenvolvimento contínuo, para a construção das estradas, é merecedor de todo respeito possível de arregimentar o esforço desmesurado para a sua concretização e a inovação conseguida. A disseminação destas Vias foi a internet da época: não 5G, mas eficaz à sua medida na transmissão de conhecimentos: filosóficos, naturais, culturais, etc...
Neste sentido, como elemento solidificador de uma identidade comum, o Caminho de Santiago foi declarado, pelo Conselho Europeu, o primeiro Itinerário Cultural da Europa. Mais do que o reconhecimento administrativo, ressalta a importância dos caminhos que, atravessando todo o território, em permanente ebulição, em direcção a Santiago de Compostela, facilitaram o diálogo intercultural, a transmissão de conhecimento e a agregação num sentimento comum que ajudou a construir o espaço que hoje habitámos. E isto, dura há centenas de anos...
Torre da igreja do convento de S. Domingos.
Conhecido Mural do Peregrino
Prosseguíamos em direcção a Redondela, próxima paragem no albergue. Não recordo quem sugeriu que procurássemos pouso ainda antes, pois o cansaço ditava leis. Assim, encontrámos um albergue, privado, pertencente a uma associação de boas-festas e afins: AA.VV. Santa Ana de Veigadana PR, em Mós. Imaginem um terreiro, grande, vazio. Ao fundo, uma construção apalaçada a barraca de comes-e-bebes, mais baixa do que seria de esperar. Num canto, entre uma das laterais e um muro, vários itens de possível-utilização-préstimo-qualquer-dia apodreciam empilhados num equilíbrio instável. Tudo aparentava a ser um tiro ao lado. Entre prosseguir mais uns quantos quilómetros até Redondela, apesar da fadiga, ou ficar por ali, já não se apresentava de tão difícil resolução.O interior do tasco: era necessário descer escadas para aceder ao interior - daí, visto de fora, aparentar ser atarrecado. As cervejas no balcão já lá estavam.
Felizmente o assunto resolveu-se a contento: o albergue não era ali, mas sim um pouco mais acima, num prédio de 2 pisos - no r/c funcionava o snack-bar; no 1º andar, os quartos com beliches. Como também preparavam refeições, foi lá o nosso jantar; se assim não fosse, ficaríamos sem comer, pois, tanto quanto me apercebi, nada mais havia em redor.










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