Confesso o meu espanto - estou espantado! Sob os préstimos da tortura vil e deformadora do ténue entendimento à luz do razoável, da candeia de frouxa claridade que ilumina os meus dias de obscurecido e cinzento saber, emerge a vã glória, triste sina a corroer-me as entranhas em frémitos de degenerada sapiência, como espasmos da razão desmoronada em escombros sob os resquícios da minha fé e crença inabaláveis; imutável pensamento deglutido e regurgitado sob a forma de dúvida, ambiguidade, receio.
Mergulhei nos livros. Saramago:
"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por ronco, chilreio, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria." *
Ainda não, não é isto. Procuro respirar, mas o ar rarefeito compõe-se de miasmas de miséria e podridão. É excruciante esta dor, lancinante no seu latejar cadenciado; o bater do coração subiu ao cérebro à laia de conquista territorial e a desnutrida massa cinzenta arremessada desabridamente contra a parede óssea da minha cabeça. Tenho uma romaria dentro de mim.
Valha-me S. Miguel:
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa não é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo." **
Perceberam? Habito a névoa da incompreensão; ao longe, traços esbatidos abandonam o corpóreo, como esboços desenhados a carvão numa folha em branco. As referências, salvadores pontos cardeais do meu desnorte, bailam fugazes em rodopios entontecidos. Desirmano-me do ser pensante e sou calhau empoeirado perdido no terreiro. Um cão rafeiro alça a pata e vem mijar-me em cima - é o diário dos meus dias.
Valha-me o Pd. António Vieira, se alguma luz, mesmo vacilante, obstruir o célere empenho da minha antecipada loucura. Aposto todas as fichas, até as do carrossel:
"Nenhuma cousa se pòde prometter a natureza humana mais confórme ao seu mayor appetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que noticia dos tempos, & successos futuros; & isto he o que offerece a Portugal, à Europa, & ao Mundo esta nova, & nunca ouvida historia. As outras historias contaõ as cousas passadas; esta promete dizer as que estaõ por vir: as outras trazem à memoria aquelles successos publicos, que vio o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos occultos, & escurissimos que não chega a penetrar o entendimento." ***
PASMASTEIS QUE NEM EU, Ó CRIATURAS?
Ó INCRÉUS DO DANADO INFERNO: VÓS OUVISTEIS E NÃO ESTAIS LOUCOS?!?!?!?!
Deste acontecido dou lavra, corpo presente e temente, sanguíneo quente, da ocorrência sucedida em actos e outros análogos na boa Terra de Mos, Camiño Santa Ana, Galiza, naquela que foi a noite 28 do mês Abril do ano da graça de 2017.
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